
Folheando algumas páginas da memória encontrei estas delicadas figurinhas “Amar é” que marcaram meus exatos sete anos de idade. A cada cartãozinho que colecionava descobria que amar é era tanta coisa, então refletia: ’como poderia caber tanto dentro do peito? Amar é, amar é...’ E por si mesma descobri que amar é um contentamento natural que fazia acelerar e aquecer o coração. Mas também era um transbordamento de alegrias como quando se coloca água demasiado num copo e ele começa a derramar pelas bordas. No entanto, as águas põem-se a flutuar como se ganhassem um par de asas. Preenchimento que inspira levezas. E aí compreendi que amar é um tanto contraditório, cheio e leve ao mesmo tempo.
Minha primeira paixão foi pelos livros, todos os dias ansiava por vê-los, e assim, diariamente ia ter com eles na biblioteca municipal. Adorava sentir o cheiro e ficava maravilhada ao observá-los naquelas estantes negras. Caminhava vagarosamente e tocava-os um a um antes de iniciar o ritual da leitura. Eu os namorava. A gente ia se conhecendo aos pouquinhos sem muita pressa. Meu coração saltitava ao desvendar seus códigos secretos. A cada descoberta um mundo novo. De leitora virava personagem da história. Vez ou outra era a Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, Iracema de José de Alencar, a Narizinho ou a Emília de Monteiro Lobato ou outro personagem fictício criado pelo meu imaginário que entrava no livro e mudava o rumo da história. E nessa época experimentei uma felicidade indescritível quando pude levar pela primeira vez um livro para casa. Dormimos abraçados. E aí entendi que Amar é também um chamego, querer estar sempre de mãos dadas com o objeto amado.
Mas primeiro amor, amor mesmo foi por meu vizinho de alfabeto. Eu era o A de amor e abraços, ele o B de belo e beijos. Gostava dele, sentia, o coração avisava descompassado. Àquele gostar ingênuo de menina de sete anos. Trocávamos figurinhas: Amar é... Ele furtivamente sempre as colocava no meu caderno. Eu fingia nada perceber. Não precisávamos dizer muito. Dizíamos tudo nos pequenos gestos e olhares mudos. Namorávamos apenas olhando-se, as pupilas tragavam-se (Não havia beijos, destes, eu fugia desesperadamente com a face afogueada e olhos arregalados ao correr de um menino ‘cabeludo’ que sempre ao ver-me ameaçava-me roubá-los. Este ficou conhecido como o ‘tarado da pracinha’).
Mais tarde dei-me por si que o B de belo também era B de besta ao vê-lo certo dia na hora do recreio juntamente com outros garotos igualmente bestas a impedir a passagem das meninas no corredor – posicionando uma das pernas estiradas ao chão – salvo se estas lhe ofertassem beijos. Então o A de azeda de raiva deu-lhe com o pequenino pé um beijo bicudo bem no meio da ‘canela’. E por fim deu-se conta que Amar também é um contentamento descontente e que de tão cheio às vezes pesava.
Angella Reis
beijinhos *--*



















