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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Flor dos Quereres – 2012




Ingressar num novo ano é como adentrar em outra dimensão de nós mesmos. A vida que se desdobra. A porta se abre e nos brinda com o raiar de um novo dia. Cores que já estamos acostumados a ver, mas brilham de um jeito especial, diferente, porque vistas com o olhar de quem olha o verde da vida, que vai nascendo, brotando, desabrochando em recomeço. Então, olhamos para trás e despedimo-nos do ontem, do sábado e todos os dias anteriores enquanto o hoje pacientemente nos espera com os amanhãs e todos os dias que virão [até quando não sabemos. Essa é uma das peças que compõe o mistério].

Abraçamos entre lágrimas e sorrisos os dias idos e guardamos os momentos numa caixinha de memórias, como a um relicário de doces lembranças. Há coisas, no entanto, que queremos livres, nos desprender, deixar que o vento leve para longe [se retornadas que venham suavizadas pela marca indelével do tempo] outras tantas desejamos ardentemente esquecer ou nunca tê-las vivido, ao menos se pode dizer é passado, ainda que, por vezes, sombras rondem a casa do coração deixando vestígios de sua passagem. Passado que se faz presente em recordações, insistem em reaparecer mesmo quando se soubera esquecidas, burilando quase sempre a mesma ferida. Não sabemos os porquês de certas coisas e muitas vezes nos afligimos, seja pela perda de um amor, um projeto que não deu certo, a doença que nos pegou de surpresa, a morte de um ente querido, enfim. Mas se nada ocorre por acaso, se tudo em uma razão de ser e de existir por que nos questionarmos tanto e buscarmos entender àquilo que no momento não é possível ser compreendido? Clarice tinha razão: “Não procure entender, viver ultrapassa todo e qualquer entendimento”. E talvez viver seja isso, não para ser passível de se fazer sentido, mas para ser sentida, então, eu sinto. Sinto pulsando em minhas artérias o mistério que é a vida. Ela própria se explica, com o tempo.

Não inculque com certas coisas, nem lamente determinados fatos, o que viveu ou o que deixou de viver. O que passou não pode ser alterado, mas a vida nos dá uma nova chance de continuar escrevendo a nossa história. E cabe a mim, a você abraçar e aproveitar o presente que nos é dado. É certo que não sabemos o que nos espera, por detrás das folhagens verdejantes há uma imensa floresta, mas vale a pena prosseguir, correr todos os riscos, desbravar a mata virgem e colher a flor dos dias que germina na terra. ‘Não tenha medo de viver a vida, tenha medo de não vivê-la’.

O domingo nos recebe com uma folha em branco festa, ano novo, vida que se renova, nua flor, flor dos quereres.

Faça a sua prece! ♥


Angella Reis

sábado, 24 de dezembro de 2011

É Natal




É Natal. O badalar dos sinos ressoa misturados aos sons dos corações que tocam em uníssono. É chegada a mais bela data de todos os anos. A mais pura e singela beleza emoldurada pelo brilho do amor que paira sobre nós. Época que todos se dão as mãos e elevam o olhar numa única direção, à estrela guia esperança. E, neste dia tão especial que o Verbo Amor se fez Carne entre nós que possamos antes de qualquer coisa agradecer a Deus, ao nosso Papai Noel Maior pelo presente chamado Vida. Afinal que data melhor pra se fazer isso senão no dia que se celebra a vinda, o nascimento do menino Jesus? É com o olhar de quem ama e de quem espera o melhor que vida pode oferecer (porque a Vida é assim além de ser Flor da existência que nos foi concedida com muito amor, como maior e mais belo Presente, ela própria nos presenteia a cada passo, a cada descoberta. A vida é presente constante) que meus desejos tremulam ao vento pedindo a Deus que o Espírito Natalino, essa íntima relação entre todas as almas humanas iluminadas pela Luz Divina, perdure não só nas noites de Natal, mas durante os 365 dias do Ano. Que a Vida se refaça e se renove em cada um levando embora todas as dores (mágoas, rancores, tristezas e angústias). Que as energias positivas somadas e irradiadas neste dia deem um colorido maior aos dias que virão. Que o fogo do Amor aqueça e envolva a todos com ternura e afeto. Que sejamos mais entrega e doação. Que a semente da Flor de Amor plantada hoje floresça e que a alegria, a bondade, a harmonia, a fraternidade e a paz se façam sempre presente. Amém!

Desejo um dia recheado de coisas boas, de abraços e sorrisos sinceros e muito, muito amor. Feliz Natal a todos! Paz e Bem! =*

[Angella Reis]

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Encontro



Há muitos ao redor desejando a visão do paraíso, o modelo de anjo que se faz sol, mas à minha frente há apenas um. Todo o resto são rostos e vozes desconhecidos na multidão. À nossa volta um círculo formando um elo, nossos olhos se cruzam, baixo os meus para evitar o choque elétrico. Os lábios dele sorriem levemente e eu me pergunto se o motivo é por estar a escutar o descompasso do meu coração. Caminho até o portão de desembarque onde me espera com um sorriso de boas vindas!

Como poderia imaginar que depois de anos o que fora partida tornar-se-ia encontro, não marcado, mas predestinado, previsto na janela do tempo. Parafraseando Caio Fernando Abreu: ”O que tem de ser tem muita força”. É tipo não poder afirmar categoricamente, dessa água jamais beberei porque por mais que nossos atos sejam determinantes há sempre algo que nos escapa, foge do nosso controle. Você pode fazer planos de viajar por outros ares e no percurso, ou antes, de concretizar a idéia, haver uma mudança brusca que te leve a outro lugar e lhe apresente ‘o chamado: inesperado’, exteriormente, porque no recôndito, no fundo, fundo mesmo, há infinita espera, ainda que inconsciente, perdido, esquecido, guardado ou adormecido em algum lugar, talvez em gavetas de desistências. Há coisas que não valem à pena persistir e há coisas que não são permitidas, porque vieram desencontradas, ou nem tanto assim, visto que tudo tem o momento certo. Porventura, todos os caminhos por quais trilhamos, estão traçados na palma das nossas mãos, e, quiçá, marcados nas calçadas invisíveis do espaço que se cruzam e por vezes se entrelaçam em tantas outras. Num emaranhado algumas dão nós, outras se tornam laços, feitos e desfeitos.

E agora essas linhas nos puxam ao encontro um do outro como se estivéssemos atados a um anzol, fisgados pela boca, vontade de devorar o que já consome, os olhos afoitos suplicam, mas os passos são comedidos como a temperar dentro do peito a emoção. À espera das horas.

Milagre é ver o impossível se realizar a cada instante.


Angella Reis


*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Memórias da infância - Ser criança



“Quando eu era pequeno
Tudo ficava perto,
Pertinho para chegar ao céu
Bastava uma subidinha,
O sonho me alcançava
Para ir tão longe como queria,
Quando eu era pequeno
Eu sim podia
Eu sim podia” (Silvio Rodriguez)



Sábado de aleluia, casa cheia, familiares, amigos, crianças correndo pra lá e prá cá. A mesinha da sala de estar estava repleta de álbuns de fotografia, todos remomeravam o passado. Burburinho, algazarra, saudades de quem já se foi... E as crianças correm a brincar como se o tempo tivesse parado ali. Vivem como ninguém a intensidade do momento. Passo a observá-las. Quanta sabedoria há numa criança. Meu desejo é estar com elas, a criança que há em mim. Elas sim sabem viver. Os adultos deviam se espelhar nas crianças. Deviam ser como as crianças. O adulto quando discute, briga com alguém, geralmente não perdoa. A criança em sua mais tenra sabedoria se desentende com o coleguinha, no segundo seguinte esquece, e logo torna a brincar de novo, dar as mãos. Hoje,

já adulta, ainda sinto a criança em mim, talvez devido à minha sensibilidade, e como bem diz Rubem Alves: “Como os salmões, que deixam o mar e voltam às nascentes, os poetas desejam voltar às suas origens. É lá que mora a verdade que os adultos esqueceram. Fogem da loucura da vida adulta. Buscam reencontrar a simplicidade da infância. E no meu poema mãos dadas, eu busco um pouco disso, desse efeito que o ser criança nos causa...


“De mãos dadas
Corriam entre os campos
Com um sorriso de orelha a orelha
Subiram numa escada que dava para o infinito
Pousaram o ouvido nas nuvens
Saltitaram pelas estrelas
E voaram nas asas do vento
Suas risadas ecoavam por todo o canto
E enchiam de paz e ternura
O coração de todos os seres do universo”



E assim, ao observá-las, todas as memórias da minha infância me vêm à tona uma a uma... Quando eu era criança sempre sonhava que tinha uma nave espacial e que salvava as pessoas do mundo inteiro... Hoje, percebo que são as próprias pessoas que estão destruindo o planeta e a si mesmos. Eu poderia reavivar agora cada memória, de todas as brincadeiras da infância, da passagem pelo coral das crianças na igreja São Francisco de Assis, de todas as histórias... Mas inúmeras seriam as horas. Muita coisa nos marca na infância fica dentro de nós. Lembro de um rapaz que desmaiou na rua em que eu morava. Muitas pessoas se amontoaram ao redor, mas não tiveram coragem de se aproximar, alguns cochichavam “pode ser alguma doença, ou não sabemos de quem se trata”. Minha avó materna colocou a cabeça dele no colo, deu-lhe algo para cheirar e quando ele voltou a si, o fez bebericar um copo de leite. O desmaio dele era fome. Ele tinha fome de comida, esperança e solidariedade. Mas nesse dia ele encontrou. Ele estava de passagem, era de outro Estado e precisava ir ao encontro de sua mãe, mas não dispunha de recursos. Minha avó, minha mãe e algumas mulheres do bairro puseram-se a arrecadar uma quantia suficiente para que o mesmo viajasse sem maiores preocupações. Nesse dia, o viajante dormira em uma das casas de minha família na qual eu lecionava. Eu tinha onze anos, inda menina. No dia seguinte, fui encarregada de levar-lhe a refeição matinal. Ele estava desenhando na lousa, era JESUS. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Ele olhou-me e disse: “Um dia vou voltar para agradecer”. Foi num ambiente assim que cresci. Pai, mãe, avós, irmãos, tios, primos, união, amor e preocupação com o próximo.

“Aquilo que os adultos esqueceram e que a sabedoria busca – as crianças sabem. Ser criança é ser sábio” (Rubem Alves)


Angella Reis

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Na medida certa



É de praxe desejar encontrar a nossa cara metade, ou como se diz por aí, a metade da laranja. Embora sejamos inteiros, vez ou outra, sentimos como se tivesse faltando um pedaço, alguém que nos complete, ‘O encaixe perfeito’ (na medida das suas imperfeições). E aí nosso imaginário começa a voar e a gente passa a idealizar aquele cara (ou garota) do tal mundo onírico, mas o inesperado bate à porta e apresenta alguém que você jamais pensou conhecer e/ou gostar e se vê em meio a um turbilhão de emoções que te faz perceber: É Ele, aquele que faltava (ocorre, no entanto, que por ter a mulher uma imaginação fértil e aflorada muitas vezes imagina-se apaixonada, um tipo de ilusão de ótica ou de idiossincrasia, e é tão forte que acaba por acreditar nisso. É como se o homem transasse e engravidasse-lhe o pensamento e ela deixasse de pensar, só sentir, sentir, mais nada. Passado o transe e a mistura de sensações neuro-sexo-(i)lógicas, quando vai perceber não sentiu foi nada ou sentiu mais do que devia). Então, diante daquele achado não resisti e decide tê-lo ao seu lado sem se importar com possíveis defeitos e rezando por sua durabilidade. O efeito que a coisa provocou foi tão grande que não se preocupou em verificar se realmente era a tampa que faltava. Como saber? Como saber por onde anda aquela metade inteira que se encaixa perfeitamente em você (alma, corpo, coração) se temos a constante mania de se perder (oh, mas também é exercício de aprendizagem e que deveras não se aprende nunca), perdemos o prumo, perdemos o rumo.

Viajando pelo mundo das idéias e analisando racional, inteira e detidamente sobre metades que se completam, toda mulher deveria fazer um test driver antes de levar para casa seu possante, não para tomar conhecimento de direção (óbvio) e/ou manuseá-lo - isso é coisa que se aprende com o tempo, ainda que possa, algumas vezes, sair desgovernado – mas para medir o nível de confortabilidade: se tem o tamanho ideal para comportar todo o espaço e demais funcionalidades do produto. A falha na observação causará desconforto, desprazer, angústia, carência, raiva, sensação mórbida de que o problema está com você e demais neuras que varia de pessoa para pessoa, não necessariamente nessa ordem ou concomitantemente. Sem contar que pode gerar inúmeras dores de cabeça (ainda que presumivelmente inventadas), isso sem falar em possível dor real, daquelas que vem do útero, como se uma navalha cortasse-lhe as entranhas (como o efeito inverso do sapato). Isto porque a mulher também tem suas medidas o que denota que não tem essa de vantagem ou desvantagem em relação a tamanho como se propaga por aí, ainda que se afirme em possível elasticidade. Mas como a gente não vai sair por aí pegando e/ou provando tudo, isso é coisa que fica só no campo da imaginação (mas bem que se poderia antes de consumar a escolha e se meter em qualquer furada pedir para ver a documentação, tipo uma questão de segurança). Tá, longe de mim a banalização (bom seria maior preservação de ambos os sexos, sim ambos, não me venha com essa que neste aspecto somos desiguais, e, portanto, devemos ser tratados na medida de sua desigualdade), mesmo porque não é a coisa mais importante numa relação e creio haver possíveis maneiras de contornar a situação. Compensar os excessos ou a falta que só um abraço doce e quente Pode proporcionar em meio a afagos e carícias preliminarmente concedidas.

A verdade é que observando todas as coisas belas e dada a sua perfeição, a forma e harmonia como se inteiram, toda pessoa deve ter um par (de asas) perdido ou achado por aí nesse mundão de Meu Deus! Daí a gente espera, não espera, pega estrada, segue o curso, corta caminho ou roda como numa ciranda, muda o rumo, erra/acerta o passo e cruza com alguém que nos faz experimentar sensações até então desconhecidas porque vindas de um jeito novo. Que nos faz delirar, provocar uma sinergia, um descompasso em meio ao calor trêmulo dos passos, o desejo ardente de perde-se naquele abraço, embriagar-se de beijos, fundirem-se entreolhares e entregar-se com paixão. O novo, vestido de flores, sol e sorrisos, tecido de algodão bordado de carícias e coração. Doce como algodão-doce e leve, com a leveza que só as plumas tem. E mesmo banhado de chuva é como um beijo cítrico molhado que te aquece ao tempo que provoca arrepios. Deseja vesti-lo, sentir colado à pele o teu avesso, o vestido mais perfeito, e reza para que te caia bem, que te vista como uma luva, que se encaixe perfeitamente em você, na medida certa do/para o amor, sem mais.


Angella Reis

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Amar é...




Folheando algumas páginas da memória encontrei estas delicadas figurinhas “Amar é” que marcaram meus exatos sete anos de idade. A cada cartãozinho que colecionava descobria que amar é era tanta coisa, então refletia: ’como poderia caber tanto dentro do peito? Amar é, amar é...’ E por si mesma descobri que amar é um contentamento natural que fazia acelerar e aquecer o coração. Mas também era um transbordamento de alegrias como quando se coloca água demasiado num copo e ele começa a derramar pelas bordas. No entanto, as águas põem-se a flutuar como se ganhassem um par de asas. Preenchimento que inspira levezas. E aí compreendi que amar é um tanto contraditório, cheio e leve ao mesmo tempo.

Minha primeira paixão foi pelos livros, todos os dias ansiava por vê-los, e assim, diariamente ia ter com eles na biblioteca municipal. Adorava sentir o cheiro e ficava maravilhada ao observá-los naquelas estantes negras. Caminhava vagarosamente e tocava-os um a um antes de iniciar o ritual da leitura. Eu os namorava. A gente ia se conhecendo aos pouquinhos sem muita pressa. Meu coração saltitava ao desvendar seus códigos secretos. A cada descoberta um mundo novo. De leitora virava personagem da história. Vez ou outra era a Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, Iracema de José de Alencar, a Narizinho ou a Emília de Monteiro Lobato ou outro personagem fictício criado pelo meu imaginário que entrava no livro e mudava o rumo da história. E nessa época experimentei uma felicidade indescritível quando pude levar pela primeira vez um livro para casa. Dormimos abraçados. E aí entendi que Amar é também um chamego, querer estar sempre de mãos dadas com o objeto amado.

Mas primeiro amor, amor mesmo foi por meu vizinho de alfabeto. Eu era o A de amor e abraços, ele o B de belo e beijos. Gostava dele, sentia, o coração avisava descompassado. Àquele gostar ingênuo de menina de sete anos. Trocávamos figurinhas: Amar é... Ele furtivamente sempre as colocava no meu caderno. Eu fingia nada perceber. Não precisávamos dizer muito. Dizíamos tudo nos pequenos gestos e olhares mudos. Namorávamos apenas olhando-se, as pupilas tragavam-se (Não havia beijos, destes, eu fugia desesperadamente com a face afogueada e olhos arregalados ao correr de um menino ‘cabeludo’ que sempre ao ver-me ameaçava-me roubá-los. Este ficou conhecido como o ‘tarado da pracinha’).

Mais tarde dei-me por si que o B de belo também era B de besta ao vê-lo certo dia na hora do recreio juntamente com outros garotos igualmente bestas a impedir a passagem das meninas no corredor – posicionando uma das pernas estiradas ao chão – salvo se estas lhe ofertassem beijos. Então o A de azeda de raiva deu-lhe com o pequenino pé um beijo bicudo bem no meio da ‘canela’. E por fim deu-se conta que Amar também é um contentamento descontente e que de tão cheio às vezes pesava.


Angella Reis


beijinhos *--*


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Na beira do poço das sombras: moradores de rua



Recentemente assisti ao filme O Solista dirigido por Joe Wright e estrelado pelos atores Jamie Foxx (Nathaniel Ayers) e Robert Downey Jr (Steve Lopez) que narra à história de um morador de ruas/ex-prodígio da música clássica que toca violino nas ruas de Los Angeles. É um filme emocionante que nos faz pensar em todas as pessoas que vivem às margens da sociedade e que são tratados como lixo humano, seres das cidades das sombras, do submundo. Será que ao se deparar com alguém nesta situação já se questionaram quais foram as causas que o levou a esse estado de degradação ou simplesmente preferiu ignorá-lo: finjo que não estou vendo nada, afinal de contas porque tenho que dar importância a isso? Não é problema meu. Não sou eu que estou morando nas ruas e passando por toda sorte de provações; só não quero ter que cruzar com essas pessoas. Ao lado delas sinto-me em perigo constante porque convenhamos é complicado dar crédito a pessoa de aparência nada agradável e pouco confiável. Por isso pego atalho, corto caminho ou ainda pior: julgo, massacro e condeno porque é uma corja de vagabundos, desocupados, bêbados, drogados etc. que se estão nessa situação foi porque assim fizeram por merecer. Não é assim que o preconceito e a falta de humanidade proferem por aí?

Curioso como somos capazes de rotular. Eu vejo uma pedra, e aquilo para mim então é uma pedra, impossível ser qualquer outra coisa. Vemos somente aquilo que nossos olhos são capazes de enxergar, a fina camada da superfície. Impossível ver em seres que se escondem nas sombras a presença de luz. Caíram na escuridão e lá devem permanecer abandonados e banidos como se fossem cães sarnentos e ratos de esgoto, não há salvação. Eles proliferam e contaminam o ambiente. Tiram à beleza e a tranqüilidade das ruas, o sol se esconde, tudo é cinza. Então viramos a cara, fechamos os olhos porque a escória está ali. E se vierem bater à nossa porta ou não os atenderemos ou os olharemos de soslaio com a desconfiança premente de que temos algo a perder. Não é assim? Parafraseando Fábio de Melo: “Olha devagar para cada coisa. Aceita o desafio de ver o que a multidão não viu. Em cascalhos disformes e estranhos, diamantes sobrevivem solitários”. Não veja a margem, olhe dentro, mire fundo, é preciso ver, mergulhar, sentir. Olhe como quem olha uma criança que está aprendendo a andar; olhe como quem olha uma pessoa que se vê perdida na imensidão.

Nas ruas há labirintos infindáveis. Lá não vive sobrevive. No entanto, ainda que carreguem no peito inúmeras fragilidades trazem dentro de si uma imensa fortaleza. Porque é preciso coragem e ser muito forte para enfrentar o que os espera, pisar num poço sem fundo e não cair em desespero e mesmo que as agruras intensifiquem e afete a sanidade mental conseguem forças para continuar a seguir em frente. E essa coragem que vem não sei de onde, o que na verdade bem sabemos donde vem, não é a ausência do medo, é o medo inflado de força e vestido de coragem. Deus presente!

Muito dos que foram parar nas ruas não foi porque assim escolheram e não é preciso expor de forma precisa os diversos casos; vemos constantemente nos noticiários e deparamos com o quadro dia a dia. É que a vida dá rasteira mesmo quando não se envereda por caminhos tortuosos. Dá para enxergar agora? Olha calmamente...

O universo nos ensina que mesmo na escuridão há a presença de luz. E se cada pessoa acender uma vela por menor que seja aquecerá com o fogo do amor corações frios - desprovidos de afeto, de um amigo que os ajude a acalmar suas dores, a se erguer, a ser. E é essa a chama que alimentará de esperança e os manterá vivos e inteiros novamente e/ou pela primeira vez.

Foi isso que aprendi desde cedo,

que não importa que aparência uma pessoa tenha

ou quem ela seja

isso não o tornará menos ou mais importante

Aprendi que se deve amar alguém não pelo que tem,

por status ou pelo que representa

mas sim por quem é no seu interior

Aprendi que se deve estender a mão àquele que necessita

Porque um dia pode ser você

Que venha a precisar

Não importa qual ou em que ângulo

De necessidade

Aprendi também que não se deve deixar no escuro

Quem tem sede e urgência de luz

Que quando se dá as costas

Também se roubam sonhos

E joga o outro no mar da desesperança

Aprendi que loucos ao receber um prato de comida

Dividem e conversam com as flores

Porque elas lhe ofertam perfumes

Sem nada receber

Aprendi que um louco que vivenciou as ruas

Se recebe carinho e cuidados

Chama nosso pai de pai e nossa mãe de mãe

E os filhos do casal

protege como se fossem irmãos

Aprendi que se deve confiar

Mesmo quando reina no mundo

Inteira desconfiança

a falta de fé em Deus

E nos homens

E que todo mundo tem direito a uma segunda chance.

Que é preciso desprender do antigo

E vestir-se do novo.

Aprendi que se deve acreditar que é possível mudar,

Que o que aparenta não ser bonito

Pode trazer belezas imensuráveis por dentro

A Crer que um pequeno gesto pode salvar uma vida

Que quando várias pessoas se juntam a semear

fazem nascer em solo árido mudas de esperança

E que mesmo que você seja um só,

aquele pequeno ato fará a diferença.

É isso que o amor faz! Dá a capacidade de fazer brotar flores nos desertos da existência, e do ato de cultivar fará surgir oásis com fontes de curas bem maiores, e esta é a certeza plena de que aquele gesto humano de amor foi a melhor coisa a se fazer.

É preciso ter um olhar demorado sobre tudo, olhar como se fosse a primeira vez. Há beleza em cada mínima coisa, é possível ver e sentir quando se caminha de mãos dadas com a poesia.

Angella Reis



terça-feira, 11 de outubro de 2011

Saudade





Esta noite acordei com vontade de tudo, de banho de chuva, de passeio no jardim, de correr com os pés descalços, de ondas do mar, de cavalgar pelos campos, das brincadeiras da infância, quantas histórias... Uma saudade gostosa daquelas de rir-se por dentro.


Tanto se fala em saudade, mas a saudade não é só uma palavra, é sentimento. Eu diria que a saudade é uma menina que brinca com o tempo. Ah! E como brinca, ri e chora ao mesmo tempo. O tempo às vezes briga com a saudade, dizendo que tem que seguir em frente, mas a saudade sempre quer voltar - isso me faz recordar uma citação de Rubem Alves in: O amor que acende a Lua “A saudade é nossa alma dizendo para onde ela que voltar" -, mas o tempo não volta. É teimoso o tempo, ou teimosos somos nós?


Mas o bom mesmo é sentir saudade, e ela é tão forte que mesmo na presença a gente continua com vontade de quero mais e aí começa a sentir saudade de cada segundo que se passa. Quer se comer a presença, absorver o outro por inteiro.


Bom, mas como eu disse antes a saudade ri e chora. A saudade ri mais quando se está ainda com alguém, e aí “é a saudade que prepara o abraço de amor na volta daquele a quem se ama” (do livro O amor que acende a lua). Ah! Mas quando ele não volta (pessoa a quem se ama), quando ele não volta, aí a saudade mais chora que ri, só se resta as lembranças, então a saudade volta e volta, driblando e brincando com o tempo. E como bem disse Camilo Castelo Branco "Saudade é um afeto, excelso amor, o melhor amor e o mais incorruptível que o passado nos herda."


Angella Reis

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Vozes do silêncio - expressão de sentimentos





Estava aqui a divagar as várias conotações do silêncio, as diversas sensações que nos provoca. E nesse exato momento encontro-me assim mergulhada no silêncio do meu quarto, nenhum ruído, só a fala dos meus pensamentos que jorram dentro de mim a espera que os resgatem em palavras. Que poder há numa singela palavra. Silêncio! Ausência de fala ou expressão de sentimento? Não quero ouvir; não quero falar; quero estar em mim, aqui no meu lugar; não sei o que dizer; é no silêncio que te falo; contemplação. Como se pode notar o silêncio não é só silêncio, ausência de fala, é expressão de sentimento, e indo mais longe é um expressar que não se expressa, ou um não querer expressar-se e por fim acabar expressando-se. Subtendido, mal ou bem interpretado.

O silêncio sente... O nosso sentir, o do outro e/ou o que normalmente nos provoca. O silêncio é acalanto, é pranto, é fala sem falas. É um estar em si, é um estar em nós. É um estar em nada, é o vazio perdido em palavras que foram ditas, mas nunca ditas. É suspiro, regozijo, imensidão, limitação, perdição de minha ou tua alma. Paixão que se cala, amor que não fala, falta de coragem, sensatez/insensatez, provocação.

Vê, o silêncio fala e cala. E como às vezes dói o silêncio, a procura de palavras que não vem; o som que não se consegue ouvir. São pensamentos intrínsecos, perdidos no vazio de outro vazio, que dão margem a várias interpretações (nessas várias interpretações o silêncio fala) e cala porque no fundo, no fundo mesmo, não sabemos o que pensar. Isso deixa-nos perdidos, às vezes até inseguros em tais momentos assim, sei lá... Era tão simples falar, dizer o que vem n'alma.

E nessa busca de palavras, bendito sejais o silêncio quando muitas vezes não foram ditas, porque assim pudera evitar um mal maior. Cuidado. Ponderação. Calar para não ferir. Calar para se preservar.

Bendito, ainda, sejais o silêncio, quando brota de olhares apaixonados. Doce e terno, nos faltam palavras para expressar de forma tão sublime a sua fala, sentimento. Deixa-se de ser vazio, torna-se preenchimento.

É também do silêncio que nasce o ouvir, não basta o silêncio de fora, urge o silêncio de dentro, ouvir e entender o que vai n’alma, do outro, da nossa. É no silêncio também que nos prostamos em oração, ficamos mudos, sem fala, submersos, como num mergulho no fundo do mar.

O silêncio é tempo, tempo de estar comigo, tempo de estar a sós. Tempo de estar com Deus!

Silêncio, silenciosamente falando, canto, encanto/desencanto... expressão/encontro/desencontro de almas. É um estar em mim, é um estar em vós. Sentir, ouvir, calar, falar, comungar.


Angela Reis

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