
"(...) Sentiu um calor trêmulo a lhe percorrer o corpo. Havia algo mais forte que os prendia naquele instante, tentavam desviar o olhar mais não conseguiam como se fosse norte e sul de um dipolo"
Angella Reis
Angella Reis

"Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio" (Alberto Caeiro – trecho do livro O guardador de Rebanhos)
Não sei há quanto tempo não vôo, meus pés permaneceram por um longo período fincados ao chão como se tivesse chamuscado as asas. É estranho cortar os ares e ficar imóvel, não sair do lugar, não sentir o vento bater na cara, a agitar os cabelos, nem a provocar arrepios na pele, e por vezes pressentir sufocar como se o ar roubasse um beijo prolongado deixando-me ofegante. É curioso não sentir o coração na boca, nem se deixar transportar entre o verde e azul infinito, é tudo opaco, como se tivesse oco por dentro. Gosto da brisa que acaricia ou a lufada forte que joga para trás e impulsiona para frente. De sentir o sangue ferver e a adrenalina subir a mil. Do sopro que realimenta e faz encher e transbordar de existência. E cá estou afivelada, olhando a vida da janela...
Basta que eu me permita, eu sei, eu sinto que posso flutuar novamente entre nuvens, tocar a maciez do tecido algodoado e não afundar. Ser leve e não o peso do fardo que se carrega nos ombros. Expirar, Inspirar e se preencher de levezas. Vencer o medo de cair e/ou afogar ao alternar entre vôos e mergulhos profundos. Basta que eu queira, e eu quero Meu Deus! Eu quero experimentar novamente a doçura da graça que passa. O calor ardente do sol, o perfume que paira na atmosfera e embriaga. Ouvir o riso das estrelas, o sorriso misterioso da lua e se deixar contagiar. Permitir o vento levar as asperezas que atravancam o caminho. Florescer! Entregar-se e entregando-se não sentir-se metade, não ficar partida, mas inteira e plena, como plenos devem ser os dias. Olhar a vida do alto, ir além, ver e gostar de ir vendo tudo. Sentir pulsar intermitente no próprio seio o coração que brota na raiz da terra. Derramar-se e derramando-se ultrapassar as bordas, sem medo, na transversalidade da vida. Saber-se peça, parte do mistério que compõe a história no grande cenário onde todos nós desempenhamos um papel, nem menos ou mais importante. E nesse encontro de linhas que se entrelaçam, nesse jogo de peças marcadas, hei de encontrar o meu encaixe, àquilo que me encaixa. Basta que eu me permita. Que eu queira, e eu quero sim Deus tudo de novo, ainda correndo todos os riscos de não saber administrar as doses, nem compreender a posologia de forma, ignorar todas as contra-indicações como hipersensibilidade a qualquer componente da formula, mesmo assim arriscar a se perder, e ir perdendo, e ao encontrar ir se encontrando, outra e mais outra vez. Não!Não quero criar expectativas quanto ao que me espera, cansei de ilusões. Quero a plenitude daquilo que ainda não sei. Quero o inesperado batendo à minha porta. Algo bom, na fé! Não importa o que, só que seja bom.
Eu sei, é uma viagem sem volta com todas as voltas que o mundo dá. A vida não foi feita para se economizar, por isso Gaste-a, Viva, sem medo, ou terá ficado, para sempre, às margens de si mesma ... Para sempre é muito forte!
Angella Reis
*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

"...Se o seu lábio afagar a minha fronte
- Tão fervido vulcão!
E murmurar baixinho ao meu ouvido
As falas da paixão;
(...)
Talvez que eu encontrasse as alegrias
Dos tempos que lá vão,
E afogasse na luz da nova aurora
A dor do coração!"
(...)
Horas tristes - Casimiro de Abreu
Fazia frio naquele dia. Pingos grossos de chuva caíam do céu, talvez as nuvens também chorassem comungando a dor de Antônia. A sala estava repleta de pessoas que solidariamente estiveram presentes durante toda a madrugada fria. Alguns relembravam o passado, a vivacidade do falecido, amante da vida, de alma alegre, amigo de todas as horas, as festas em que o mesmo apresentava-se, exímio dançarino de samba de coco. De outro canto, o choro incontido, a dor da perda de uma pessoa tão querida. No ar o desespero daquelas pobres crianças que fatalmente perdera um pai tão cedo.
Antônia estava ali, o coração combalido, tristonho, mas sabia que precisava ser forte, a fortaleza dos seus filhos, mantinha-se então firme, atenta a tudo. Quando estivesse só poderia debulhar-se em lágrimas, dar vazão a sua dor... Sim precisava ser forte! A vida não seria nada fácil dali em diante, criar sete filhos, inda pequenos, seria uma tarefa um tanto árdua para uma jovem mulher, mas ela não tinha medo, a presença de Deus era constante no seu viver. Era uma mulher de fé. Já convivera com tantas perdas, o falecimento de sua amada mãe quando tinha apenas dez anos de idade e depois a morte de seu pai ainda na puberdade. Ficara órfã, mas não órfã de Deus, Ele sempre embalava seu sono e segurava sua mão.
– Pobre querido, amado meu. Chorava silenciosamente Antônia. Sentiria falta das noites quentes de verão, do seu tórax rente à sua pele a aquecê-la em dias de chuva. Das confidências, das trocas de olhares, da cumplicidade que os entrelaçava... Sentiria falta até das dificuldades enfrentadas juntos... Lembranças, lembranças... Agora a cama estava vazia, só o estampido do silêncio no quarto, sim o silêncio gritava. Estava assim, perdida em pensamentos quando fora anunciada a partida, a hora do cortejo final.
– Jaz meu amor, mas em meu coração o guardarei eternamente, entrego-te nos braços de Deus!
Angella Reis

Era um belo quadro, pintado por um grande artista, pensou. A grande lagoa que se formou com a chuva e as poças também serviam de espelho. Um espelho mágico. As árvores miravam-se majestosas. A casa de estilo barroco parecia deitada em águas. Viu-se ali caminhando descalça na grama molhada, os pés sujos de lama, cabelos ao vento. As árvores dançavam e cantavam ao redor. Sua imagem refletida na lagoa estendia-lhe as mãos para o encontro. Ela sorria feliz...
Angella Reis
Há tempos que meu coração me pede para voltar, é que a saudade é tanta, e às vezes lateja, fazendo reboliço mar adentro desejos despertos. Os sentidos parecem ficar ouriçados e eu passo a degustar o vermelho que o ardor da paixão me provoca. Ainda o sinto impregnado em mim por inteiro, grudado ao meu corpo como uma segunda pele.
Angella Reis
Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar,deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
E o pensamento bem devagar...
Outra vez, eu tive que fugir
Eu tive que correr, pra não me entregar
'As loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer, que eu não posso chorar
Olhe bem no fundo dos meus olhos
E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O universo conspira a nosso favor
A conseqüência do destino é o amor, pra sempre vou te amar
Mas talvez, você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor, não será passageiro
Te amarei de Janeiro á janeiro
Até o mundo acabar' (Roberta Campos)

Meu coração não está tranqüilo, não sei, é como se você estivesse passando por uma fase complicada, meio conflitante, sob pressão, com alguns momentos de angústia, e o que a gente pode fazer por um amigo, por alguém que a gente tanta ama nessas horas? Rezar é uma boa, não é? Mas não basta que a gente espere que as coisas caiam do céu e que tudo se resolva como num milagre, ou num passe de mágica. Deus disse: "faz que te ajudarei!".
É preciso fazer algo, e esse algo que queria fazer por você, segurar a mão, abraçar, dizer e mostrar o quanto é importante é também uma boa não é? Deixam-nos leves quando acariciados por esse aconchego amigo. Mas depois de um momento o poder anestesiante de um abraço amigo passa e aí retorna aquela mesma situação que ainda não fora resolvida.
Então é isso, luz da minha vida, eu queria não só rezar por você, segurar sua mão, mas poder ajudá-lo em todas as suas conquistas, aliviar e alegrar o seu coração. Vê-lo feliz, eternamente feliz, pois, quando a gente gosta muito de alguém não é isso que se deseja? O bem, somente o bem. Diga-me o que posso fazer? Afinal a união faz a força, ou em outras palavras uma andorinha só não faz verão. Bom, mas espero sinceramente que esteja tudo bem, que essa intranqüilidade do meu coração, seja apenas saudades de quem se ama e quer bem.
(Angella Reis)

"Pôs-se a olhar a paisagem que se descortinava no horizonte e suspirou: maravilhada pela beleza da natureza, entediada com a situação presente e ansiosa pelo que estava por vir, por sua chegada. Queria que os nãos da vida pudessem se tornar sim como num sonho. Muita coisa assim mudaria, mas o sim sempre também não é bom, ele acarreta mudanças que nem sempre são harmônicas" (Angella Reis)

"Por longas horas eu tive em minhas mãos uma folha em branco. E talvez fosse assim que ela devesse ficar, em branco! O silêncio às vezes fala por si. Mas como compreender o silêncio vazio de linhas? Um aceno, um adeus mudo? Penso que às vezes é melhor não dizer nada, que por falar eu te perderia, mas se não falar eu me perderia, e por perder-me perco a razão de ser, de existir." (Angella Reis)

"Às vezes precisamos viajar. Não digo conhecer outros lugares, isso também é bom, refiro-me ao nosso território interno. É preciso mergulhar, descobrir cada lugar, o recôndito mais profundo. É que não devemos nos perder de vista, nossos olhos têm sempre que nos acompanhar, ver onde estamos e o que fazemos" (Angella Reis)