Não sei há quanto tempo não vôo, meus pés permaneceram por um longo período fincados ao chão como se tivesse chamuscado as asas. É estranho cortar os ares e ficar imóvel, não sair do lugar, não sentir o vento bater na cara, a agitar os cabelos, nem a provocar arrepios na pele, e por vezes pressentir sufocar como se o ar roubasse um beijo prolongado deixando-me ofegante. É curioso não sentir o coração na boca, nem se deixar transportar entre o verde e azul infinito, é tudo opaco, como se tivesse oco por dentro. Gosto da brisa que acaricia ou a lufada forte que joga para trás e impulsiona para frente. De sentir o sangue ferver e a adrenalina subir a mil. Do sopro que realimenta e faz encher e transbordar de existência. E cá estou afivelada, olhando a vida da janela...
Basta que eu me permita, eu sei, eu sinto que posso flutuar novamente entre nuvens, tocar a maciez do tecido algodoado e não afundar. Ser leve e não o peso do fardo que se carrega nos ombros. Expirar, Inspirar e se preencher de levezas. Vencer o medo de cair e/ou afogar ao alternar entre vôos e mergulhos profundos. Basta que eu queira, e eu quero Meu Deus! Eu quero experimentar novamente a doçura da graça que passa. O calor ardente do sol, o perfume que paira na atmosfera e embriaga. Ouvir o riso das estrelas, o sorriso misterioso da lua e se deixar contagiar. Permitir o vento levar as asperezas que atravancam o caminho. Florescer! Entregar-se e entregando-se não sentir-se metade, não ficar partida, mas inteira e plena, como plenos devem ser os dias. Olhar a vida do alto, ir além, ver e gostar de ir vendo tudo. Sentir pulsar intermitente no próprio seio o coração que brota na raiz da terra. Derramar-se e derramando-se ultrapassar as bordas, sem medo, na transversalidade da vida. Saber-se peça, parte do mistério que compõe a história no grande cenário onde todos nós desempenhamos um papel, nem menos ou mais importante. E nesse encontro de linhas que se entrelaçam, nesse jogo de peças marcadas, hei de encontrar o meu encaixe, àquilo que me encaixa. Basta que eu me permita. Que eu queira, e eu quero sim Deus tudo de novo, ainda correndo todos os riscos de não saber administrar as doses, nem compreender a posologia de forma, ignorar todas as contra-indicações como hipersensibilidade a qualquer componente da formula, mesmo assim arriscar a se perder, e ir perdendo, e ao encontrar ir se encontrando, outra e mais outra vez. Não!Não quero criar expectativas quanto ao que me espera, cansei de ilusões. Quero a plenitude daquilo que ainda não sei. Quero o inesperado batendo à minha porta. Algo bom, na fé! Não importa o que, só que seja bom.
Eu sei, é uma viagem sem volta com todas as voltas que o mundo dá. A vida não foi feita para se economizar, por isso Gaste-a, Viva, sem medo, ou terá ficado, para sempre, às margens de si mesma ... Para sempre é muito forte!
Angella Reis
*Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


